Linguagem padronizada,
para que gírias ou termos regionais,
não prejudiquem o entendimento;
“Olá, sou a Andressa, esposa do Luís. Tinha vinte e dois anos na época em que tudo aconteceu, ele: vinte e oito. Estávamos casados há três anos e não tínhamos filhos (ainda não temos). Passávamos, sem sombra de dúvidas, pela pior fase de nossas vidas. Eu: desempregada, ele: afastado do trabalho por tempo indeterminado; culpa de duas hérnias de disco, sendo que, para piorar, também nos tirava o sono a possibilidade, cada vez mais provável, de sermos surpreendidos com a polícia na porta de casa, pois o Luís não estava conseguindo pagar a pensão alimentícia do filho de sete anos, fruto de um relacionamento anterior.

Tudo parecia muito sombrio: carro precisando de reparos (documento vencido e pneus carecas), aluguel atrasado há três meses (o dono da casa aparecia todos os dias para fazer uma nova ameaça), brigas familiares por questão de algum dinheiro emprestado, que ainda não tínhamos conseguido devolver…
Até nossa alimentação era precária; na verdade, a gente se virava, dava um jeito. Legal é que nunca desistíamos. Todo dia surgia um plano novo (nenhum parecia dar certo) e mesmos os fracassos não nos deixavam entregar os pontos.
Enfim, numa sexta-feira, próximo das cinco da tarde, Luís levantou a possibilidade de conseguirmos um trabalho junto a um ex-vereador, amigo do pai dele. O velho tinha um escritório de contabilidade e não sei de onde surgiu o papo de que talvez estivesse precisando de mão de obra, mesmo que apenas por algum tempo. Como tínhamos um pouco de gasolina, decidimos apostar.
Demos com os burros n’água. Tocamos a campainha inúmeras vezes e ficamos quase dez minutos batendo palmas em frente ao casarão, até um vizinho aparecer para avisar que não havia ninguém por ali já há alguns dias, pois estavam viajando e não tinham data para retornar.
Já era noite quando voltamos cabisbaixos para o carro, carregados por nossos pensamentos mais destrutivos, à beira de um ataque de nervos, prontos para um ou outro (ou ambos) iniciar o choro; isso se o acaso não decidisse agir primeiro, surgindo, literalmente, como um carro desgovernado, pronto para mudar o rumo das coisas… Foi assim: Luís reduziu a velocidade para passar por uma lombada numa rua pouco movimentada do centro da cidade e, não mais que de repente, ouvimos apenas o som da freada que antecedeu o impacto em nossa traseira, mais para o canto esquerdo. O automóvel que nos “atropelou”, apesar da colisão, passou pelo nosso carro e só foi parar um pouco mais à frente. Por um instante, imaginamos que poderia ir embora sem sequer parar e conferir se nada mais grave havia acontecido.
Ao descermos assustados para entender o que de fato havia ocorrido, vimos um homem de mais ou menos uns trinta e cinco anos sair do automóvel (preto, novo, enorme e lindo). Ele era alto, com cabelos bem penteados e rosto bonito; vestia traje social e sapatos pretos.

– Nem precisam chamar a polícia, cometi um erro e vou arcar com o prejuízo. – disse e sorriu amistosamente. – Fui conferir não sei o que no celular. Foi um descuido, acontece. Estão bem?
Aproximou-se, cumprimentando primeiro o meu marido, depois a mim.
– Tirando o susto… – murmurou Luís.
– Meu nome é Ivan! – revelou e estendeu uma pausa até ouvir nossos nomes, depois retomou. – Não se preocupem com nada; resolvo tudo. Só acho que aqui não é o melhor lugar, não é mesmo? Conhecem algum posto de combustível, supermercado, farmácia… onde a gente possa encostar e conversar?
Meu marido explicou que não morávamos tão longe dali, por isso a decisão foi por irmos até nossa casa. Para garantir que não tomaria outro caminho e desapareceria com seu automóvel moderno, Luís teve a ideia de pedir a habilitação e o documento do veículo como garantia. Ivan concordou numa boa.
O problema é que nosso carro se movia com muito custo, fazendo um ruído medonho ainda por cima. Descemos todos novamente para constatar que o para-choque, todo danificado, entortou e passou a raspar no pneu traseiro. Ivan e meu marido juntaram forças para puxar a lata, movendo também o plástico grosso…
Como sabia dos problemas de saúde do Luís, também me abaixei para tentar ajudar de alguma forma. Estava usando uma camiseta larguinha, shortinho jeans (um tanto quanto curto) e chinelos de dedo. E então, nesse momento, percebi pela primeira vez os olhos ávidos do homem que havíamos acabado de conhecer. Estava lá abaixada, fazendo toda a força que conseguia e, ao virar meu rosto, flagrei o olhar dele fixado bem no meio das minhas pernas. Levantei-me subitamente, enquanto ele empalideceu, jogando o olhar para outra direção.
– Ufaaaa! – comemorou meu marido, assim que viu o problema resolvido.
Voltamos ao carro, com Ivan nos seguindo. Partimos em direção ao nosso bairro: uma vila bem humilde, com casas simples de terrenos pequenos. Chegamos depressa, já que a distância era curta. Descemos em frente à nossa residência e reiniciamos a conversa, tranquila por sinal. Dois minutos depois, algumas verdades até foram se desnudando:
– Sorte minha que não decidiram chamar a polícia… – confessou Ivan, sorrindo timidamente. – Fiz a besteira de tomar umas doses de uísque com um pessoal. Ia me complicar, perder bastante tempo; tempo que nem tenho, pois amanhã bem cedo preciso participar de uma reunião importantíssima na capital, depois ainda terei que encarar outros compromissos fora do país.
– A gente não ia chamar… – foi a vez do meu marido. – Nosso carro tá com o documento atrasado, pneu careca, problemas nas lanternas.
Complacente, Ivan balançou a cabeça.
Eu, de braços cruzados, ali ao lado dos dois, apenas observava.
Luís:
– Quanto acha que custará o conserto do meu para-choque?
– Não tenho a menor noção, mas não esquentem a cabeça, pois pago o que tiver que pagar. Mil, mil e quinhentos? Não tenho nem ideia. Amanhã bem cedo, peço pra um amigo vir aqui. Ele se encarregará de tudo.
Depois de fazer que “sim” com a cabeça, Luís abriu o cadeado do portão e convidou Ivan para entrar em nossa casa. Nos sentamos no sofá (senti vergonha em ver aquele homem, com aquelas roupas visivelmente caras, entrando na minha modesta sala, se sentando no meu estofado surrado).
Luís:
– Ivan, infelizmente nossa situação não é das melhores. É complicado até de explicar. Tô afastado do serviço, brigando contra tudo e contra todos, enfim… Melhor te poupar das histórias tristes.
– Imagina… – sussurrou Ivan.
– O que acha de fecharmos o valor do conserto em mil reais? Você nos dá esse dinheiro, transfere pra minha conta, sei lá… A gente utiliza em nossas urgências e, depois, dou meu jeito pra arrumar o carro; isso quando as coisas melhorarem. Pode ser?
Eu, calada, ciente de toda nossa dificuldade, torcia pelo “sim” do homem.
Ivan sorriu.
– Faço diferente: te dou esse valor em dinheiro, agora mesmo e, ainda por cima, peço pra alguém te procurar amanhã e consertar o estrago que causei. Conserto também as lanternas, os pneus e o documento. Melhor assim?
Luís me olhou com os olhos faiscando, boquiaberto e incrédulo. Tentei conter minha euforia, mas falhei, demonstrando um entusiasmo que instintivamente transformou minhas expressões. Os últimos dias haviam sido tão tensos, que era difícil acreditar que aquilo realmente poderia estar acontecendo.
O homem se levantou, enfiou a mão no bolso detrás e apanhou a carteira. Retirou todas as notas que havia nela, contou rapidamente e depois entregou ao meu esposo. Enquanto tornava a se sentar, exclamou:

– Mil, cento e oitenta reais… É tudo o que tenho aqui. Mas, me deixe perguntar… – outra pequena pausa, agora para alternar o olhar entre o rosto do meu marido e o meu. – Tão pensando em fazer alguma coisa nesta noite? Caso não tenham nada em mente, adoraria levar os dois pra jantar comigo… Meio que um pedido de desculpas pelo acidente que causei. Topam?
– Muito obrigado, mas já ajudou bastante. – respondeu Luís.
– Vamos! – insistiu Ivan. – Jantam comigo no hotel e depois passam a noite por lá; pra se desestressarem um pouco. Pela manhã, enquanto tomo meu rumo, meu pessoal se encarrega de cuidar do retorno de vocês. Vão gostar, tenho certeza…
Meu marido jogou a bomba em meu colo:
– E aí, Dressa?
Ivan me encarou com um sorriso que parecia misturar apreensão e malícia.
Claro que estava doida para aceitar, mas, por outro lado, o cara que me encarava era um estranho que havíamos conhecido menos de uma hora atrás. Pensei, pensei, pensei… e claro que no final acabei dizendo que aceitava. Além de pensar com o estômago, fui pega pelo desejo, nunca antes realizado, de passar uma noite em um hotel.
Aí, como só tínhamos um banheiro, enquanto meu marido foi tomar banho, continuei no sofá, distante um metro e meio, dois metros do sofá à frente, onde Ivan se sentara. Devo admitir que, a princípio, tão logo me vi sozinha, temi receber alguma cantada ou qualquer tipo de investida; quando, na verdade, as frases que acabamos trocando, saíram cercadas de respeito e sutileza:
– Quantos anos tem, Andressa?
– Vinte e dois!
– O Luís é mais velho que você, não?
– Seis anos. E você, quantos anos tem?
– Trinta e sete. Daqui dois meses fico mais velho…
Fazíamos pequenas pausas, depois o papo voltava com tudo:
– Gosta de viver nessa cidade?
– Nascemos aqui, nossos pais são daqui… Virou costume.
Reparei que ele me olhava de uma forma bem cuidadosa. Mulher sabe quando está sendo observada, mulher sabe o jeito que a estão olhando. Disfarçava bem, movia os olhos para não os deixar fixos em qualquer ponto do meu corpo, com o cuidado de avançar o olhar apenas quando fazia perguntas ou comentários.
Admito que também o observei bastante (mulher também olha, viu?). Nunca fui o tipo de mulher oferecida, muito pelo contrário. Luís foi meu primeiro e único homem.
Mas voltando ao Ivan: ele era um homem bonito, sofisticado, com cara de que já havia vivido muitas coisas na vida, muitos romances, sabe? Devia ter, mais ou menos, um metro e oitenta, mãos e pés grandes, ombros largos. Apesar do casaco cobrindo a camisa, dava para perceber que possuía o corpo de quem gosta de esportes, de quem se cuida. Tinha a pele clara, cabelos penteados para trás, barba por fazer e olhos castanhos. Sempre fui fascinada por lábios… e os dele tinham o tamanho certo, a melhor espessura, vermelhinhos. Dentes branquinhos e alinhados.
– O que faz por aqui? – perguntei.
Ele sorriu.
– Trabalho numa empresa que constrói e administra hotéis. Antigamente nosso foco restringia a atuação apenas às capitais: São Paulo, Minas, Rio. Isso até o conselho do grupo optar por expandir a operação e englobar cidades menores.
– Vão construir aqui em Itapevi?
– Em breve. – confirmou com um sorrisinho charmoso. – Compramos um grande terreno próximo ao centro. Até o final do ano começarão a ver máquinas jogando poeira pra todo lado…
Nisso, Luís apareceu, todo arrumado. É claro que não trajava roupas elegantes como as de Ivan, mas estava bem melhor que antes do banho. Usava camisa e calça social, uma jaqueta jeans que não combinava com nada e os sapatos de cor caramelo que dei a ele no último natal.
Fui tomar banho, enquanto os dois passaram a conversar.
Ao entrar no banheiro, tranquei a porta e me despi pensativa, ficando apenas de calcinha, olhando aquela mulher que me olhava de volta dentro do espelho. Sou vaidosa, mas naquele momento, algo me dizia que talvez precisasse me cuidar ainda mais. Parece que de repente passei a me comparar com o tipo de mulher que um cara refinado como o Ivan talvez costumasse se envolver. Coisa estranha, não?

Tenho um metro e sessenta e oito, cerca de sessenta e um quilos, (Luís é um pouquinho mais alto: tem algo em torno de um e setenta e quatro). Meus cabelos são lisos, castanhos, compridos (até o meio das costas). Meus peitos têm um tamanho legal, não são pequenos não… e inclusive os acho bonitinhos. Como diz minha mãe: “nossas bundas são nosso ponto forte” (risos). Tanto minha mãe, quanto minha irmã e eu… temos a bunda bonita, acho que tem a ver com genética. O Luís morre de ciúme, porque sempre alguém olha, principalmente quando ouso usar saias ou shorts curtos, como há pouco.
Assim que meu pai faleceu, minha mãe tratou de arranjar outro companheiro, então, teve que aprender a se comportar, como eu. Mas minha irmã não, nem um pouco; a danada sabe usar a arma que tem. Não para com namorado nenhum e, juro, acaba sempre traindo todos eles.
Sempre fui diferente dela. Mesmo com todos os problemas de um relacionamento; sejam financeiros ou até mesmo os relacionados à saúde do Luís, o mais próximo que cheguei de uma traição, talvez tenha sido quando trabalhei numa casa lotérica da cidade. O lugar era bem pequeno, quase um corredor, com um espaço anexo onde havia três guichês de atendimento. Eu ficava em um e dois funcionários nos outros: um rapaz e uma senhora (tia-avó do proprietário). Esse rapaz vivia aproveitando a particularidade do local para me encoxar… e, por motivos óbvios, só fazia isso comigo. Ele era esperto: quando eu saía do guichê para almoçar ou voltar do almoço, buscar água ou ir ao banheiro; ele corria e saía junto, como quem não queria nada, sempre pelo caminho oposto, para nos cruzarmos. Aí disfarçava, mas, de passagem por mim, arranjava uma maneira de encoxar. Às vezes se esfregava na minha perna, mas gostava mesmo da minha bunda. E eu, sinceramente, sabia que aquilo não era a coisa mais correta do mundo, mas como não nego que também gostava e achava inofensivo, nunca me incomodei. No restante do tempo ele era respeitoso, atencioso com todos, falava pouco e sempre tentava ajudar. Na primeira vez que aconteceu, achei que tivesse sido um acidente, depois é que percebi que ele fazia por querer. Meu único medo era de que alguém visse. Quando acabei demitida, perguntei a ele se sentiria saudade… O “sim” veio acompanhado com o elogio de que, segundo o próprio, seria a pessoa mais “gente boa” dali. Gente boa… gente boa nada; ele ia é sentir falta da minha bunda. Se fosse minha irmã, certeza que teria deixado o pobrezinho fazer mais coisas ao invés de ficar apenas encoxando.
Bom, terminado meu banho, coloquei um vestido justo, preto, que terminava um pouco acima dos joelhos, com decote nos seios e uma abertura nas costas. Olhei novamente no espelho e me achei bonita, mas só tive certeza quando retornei à sala e vi tanto meu marido quanto Ivan me medirem dos pés à cabeça. Fiquei sem jeito (sou tímida), mas foi bom perceber as reações.
Guardamos nosso carro na garagem, depois entramos no carro bonito: Luís no banco do passageiro e eu atrás, levando ao meu lado uma mochila com algumas roupas, escova de dentes, pente para cabelo…
– Aonde vamos? – indaguei.
– Já voaram alguma vez?
– Não! – respondi instantaneamente.
Ivan perguntou se tínhamos medo. Luís deu uma de machão e disse que não, restando a mim admitir o temor, mas argumentando que também tinha muita vontade de experimentar.
Dez minutos depois, chegávamos no aeroclube e a ficha caía de vez: realmente iríamos voar naquela noite. Perto de um hangar, havia um homem alto (macacão de piloto) e outro mais baixo, com cinquenta e cinco, sessenta anos, barba e cabelos grisalhos. Este se chamava Rui, trabalhava com o Ivan, era o faz-tudo dele. Veio rapidamente conferir o estrago no para-choque do carro, depois garantiu que nos ajudaria com o conserto do nosso.

Já dentro do helicóptero, agora com menos macheza, Luís perguntou com a voz trêmula:
– Ivan, pra onde estamos indo?
– São Paulo, capital! Tenho uma reunião por lá amanhã pela manhã, depois parto para a Flórida. Mas fiquem tranquilos, enquanto isso vocês estarão voltando pra casa. – explicou e bateu com a mão na perna do meu marido, sentado entre Ivan e eu. – É bem mais seguro que andar de carro, pode confiar.
Aí o helicóptero subiu e, só depois dos minutos de apreensão, pude curtir aquela sensação maravilhosa. O medo aos poucos foi virando euforia. Perde-se a noção do tempo quando se está voando. Quando chegamos no heliporto, o piloto aterrissou a máquina, mas quem disse que deu vontade de descer?
Um carro nos levou a um hotel chique, com formato de meia lua invertida, cheio de janelas redondas e luzes em todos os cantos. Um funcionário uniformizado veio nos receber no saguão da recepção.
– Boa noite, Sr. Ivan Vasconcelos!
– Boa noite! Trouxe amigos que vão precisar de uma suíte também! Tudo por minha conta!
O homem cuidou das malas do Ivan e de nossa mochila, depois nos encaminhou a um elevador panorâmico que subiu até a cobertura, onde havia um restaurante magnífico, com mesas espalhadas no entorno de uma grande e linda piscina.
– Imaginavam que jantariam observando o Parque do Ibirapuera? – perguntou Ivan.
Jamais imaginaríamos, nem em sonho. Na verdade, éramos dois deslumbrados, impressionados com tudo. Quando o jantar foi trazido, para se ter uma ideia, não sabíamos nem como nos comportar à mesa. Além de nós três por ali, havia apenas mais quatro casais ocupando outras quatro mesas… Uns minutos depois, só havia dois. Uma hora e meia depois, só havia a gente. Conversamos sobre mil e um assuntos. Falamos sobre nossa rotina desinteressante e, em troca, ouvimos Ivan falar sobre suas viagens, sobre seu trabalho, sobre alguns de seus hobbys. Perto das duas da manhã, quando já estávamos meio bêbados, Luís colocou a culpa nos remédios que tomava para justificar o desejo de ir conhecer a tal suíte, enquanto Ivan tentava nos convencer a continuar bebendo.
– Depois de descobrirem que tenho duas hérnias de disco, me entopem de remédios. É isso ou cama, sem eles não fico em pé mais que dois minutos. O problema dessas drogas é o sono que vem junto. – foi dizendo meu marido. – Fiz fisioterapia, mas os médicos decidiram operar. Agora tô esperando alguém me ligar com o agendamento da cirurgia… Uma espera de quase dois meses. Dê graças a Deus caso esteja conseguindo pagar um convênio médico neste país.
Quando estávamos prestes a nos recolher, Ivan disse que ficaria mais um pouco por ali, entretanto, teve o cuidado de se levantar e deixar a mesa, caminhando com a gente pela borda da piscina. Próximo ao balcão do bar onde ficaria, estendeu a mão ao Luís, mas bem na hora do simples cumprimento, o puxou e abraçou. Mais que um gesto de carinho, pareceu algo verdadeiro; até meu marido concordou depois. Em seguida, quando se virou e abriu os braços em minha direção, nosso abraço acabou interrompido pelo (quase) grito que Luís deu, assim que percebeu que deixara sua horrorosa jaqueta jeans na guarda da cadeira em que jantara. Correu para buscá-la.
Esperto, Ivan soube tirar proveito da situação: aproveitando que meu esposo não nos observava, me abraçou rapidamente e beijou meu rosto, depois, com sutileza e destreza quase professoral, deixou as mãos, que a princípio estavam posicionadas entre a lateral e a parte detrás de minha cintura, escorregarem sobre minha bunda. A apalpada durou dois segundos e terminou com o sorriso dele que transbordava safadeza e o meu que misturava toda a minha tensão e vergonha, isso enquanto meu esposo já retornava.

Retirou, em seguida, um cartão de visitas do bolso e nos entregou.
– Guardem o contato do Rui. É quem cuidará do conserto do carro. – garantiu, antes de mencionar sua torcida por nós. – Como acho que não nos veremos mais, aproveito para desejar que as coisas melhorem.
Também agradecemos e lhe desejamos tudo de bom, em seguida o deixamos só.
Fomos ao quarto. Era a hora de nos impressionarmos com a suíte, com a hidromassagem e com a roupa de cama. Luís, que até então não havia demonstrado nenhum tipo de desconfiança ou ataque de ciúmes, veio com umas conversas meio estranhas:
– Com caras ricos como Ivan por aí, como foi escolher um fodido como eu?
– É o fodido que eu amo!
– Um dia vou te dar uma vida muito melhor, pode acreditar.
– Eu sei…
A voz dele, meio amolecida pelo vinho, queria falar mais coisas:
– Luís gostou de você.
– Nem percebi!
– Ele não te falou nada?
– Não.
– E se falasse: cairia na conversa dele?
– Claro que não, sou sua esposa!
– Mas ele é bonitão, não é? Tem bastante dinheiro, fala bem…
– Mas você é o meu marido, não ele! – insisti.
Depois fomos para a cama e transamos. Nada muito sensacional, mas foi gostoso. Em alguns momentos, por alguns flashes e por motivos que não pude controlar, não tive como não imaginar o Ivan ali comigo. Pelas nove da manhã, acordamos. Subimos para tomar café, depois fomos conduzidos ao heliporto novamente. A sensação de que voltaríamos à nossa vidinha medíocre nos causou um desânimo torturante.
Uns dias depois, nosso carro ficou pronto. Os pneus foram trocados e os documentos: colocados em dia. Tudo ia bem, até uma bomba explodir: a polícia apareceu numa manhã e levou Luís à delegacia, depois ao presídio. Me desesperei.
Ou quitávamos os valores que ele deixou de pagar à ex-mulher (e nem isso era garantia de soltura imediata) ou ficaria trancafiado ao menos por uns trinta dias, sendo que, mesmo que acabasse solto, correria o risco de ser preso novamente, até que conseguisse colocar os pagamentos rigorosamente em dia. Um advogado público veio com a sugestão de propormos um acordo que parcelasse a dívida, mas, para isso, ressaltou que precisaríamos de um valor para ser oferecido como sinal. O problema é que não tínhamos nada, quantia alguma. Tentei então falar com a ex-mulher dele… mas a vagabunda nem me recebeu.
Só me deixaram ver meu esposo uma semana depois.
– Como você tá?
– Péssimo! – reclamou ele. – Isso aqui é desumano.
– Tô pensando em pedir ajuda pro cara que trabalha com o Ivan.
– Acho perda de tempo.
– Não dá pra simplesmente cruzar os braços…
– O velho vai rir da sua cara.
– Sabe onde colocou o cartão com o telefone dele?
– Acho que na gaveta da mesinha, mas não tenho certeza.
Conversamos mais um pouco, choramos muito, depois fui embora.
Cheguei em casa e o cartão realmente estava lá. Peguei o telefone e disquei o número impresso no papel sem dar tempo para criar obstáculos que me fizessem desistir. A voz grossa indagou do outro lado da linha:
– Quem?
– Sr. Rui, aqui é Andressa…
– Que Andressa?
– Esposa do Luís… O Ivan bateu em nosso carro, se lembra?
– Ah, sim… O carro está bom?
– Está sim, mas precisava falar urgentemente com o Ivan. Sabe como posso encontrá-lo?
– Não pode!
– Por quê?
– O Ivan é um sujeito muito ocupado, com um tempo muito curto. Talvez vocês não tenham percebido, mas ele é o dono da organização, é quem dá todas as ordens. Não existe número para ligar, não existe local para procurar… Desista!
E desligou sem sequer dizer “tchau”.
Desabei no choro. Aquela, com certeza, era a única chance que tínhamos. Também, que idiotice a minha acreditar que um estranho poderia nos ajudar, pura insanidade. Na vida real essas coisas nunca acontecem.
Mas aí meu telefone tocou.
– Andressa?
– Eu!
– Andou me procurando?
– Ivan?
– Isso mesmo.
– Procurei sim… – admiti com voz de choro.
– Interrompi uma reunião só pra retornar. Chego aí em Itapevi daqui dois dias. Quinta-feira, seis da tarde, aí na porta da sua casa, combinado?
– Sim, combinado! – respondi, antes que a ligação se encerrasse.
Aqueles dois dias pareceram dois anos, fora a dúvida cruel que martelava minha cabeça: será que viria realmente? Mesmo atormentada pela incerteza, às seis da tarde, estava preparada. Fez um friozinho, então fui lá fora aguardar usando blusa de moletom marrom, calça branca e tênis.

Às seis e dez, um carro freou bruscamente. Quando o vidro se abaixou, o motorista com cara de mau me pediu para entrar. Apesar do receio, obedeci sem fazer perguntas. Oito minutos depois estava descendo em frente a um prédio comercial do centro da cidade. Logo na entrada, fui recebida por Rui, que me acompanhou até o elevador. Segurou a porta enquanto apertava a tecla correspondente ao sexto andar, para em seguida me deixar subir sozinha. Ao desembarcar, caminhei por um corredor de portas fechadas e, conforme a instrução que havia acabado de receber, entrei na única entreaberta.
Parecia um escritório, um pouco escuro, pois só havia uma luminária acesa sobre a mesa de reuniões. No outro lado, um balcão de bar bem sofisticado, mais para o canto, onde Ivan, sentado em uma poltrona alta, já me observava enquanto balançava um copo de uísque… fazendo movimentos circulares.
– Boa noite, Andressa!
– Boa noite!
– Pode entrar… – foi murmurando. – Quer tomar alguma coisa?
– Não, obrigada.
– Certeza?
– Sim.
Puxou uma poltrona para que eu também me sentasse.
– Cadê o Luís? O que houve?
– Foi preso porque não conseguiu pagar a pensão do filho. Já faz uma semana e meia. O advogado acha que só terá chance de sair depois que completar um mês atrás das grades.
– E o que quer que eu faça?
Engoli em seco.
– Que nos ajude.
– Mas sou engenheiro, não advogado. Não conheço nada sobre cadeia e nem sobre pensão alimentícia… nem filho eu tenho. Não posso ficar o resto da vida socorrendo vocês quando alguma coisa acontecer. Sei que têm problemas, mas quem não tem? – fez mais uma de suas pausas, bebeu uísque, sorriu. – Naquela noite, tava em dívida com vocês. Havia acabado de provocar um acidente, levemente bêbado e com pressa de chegar à capital. O que fiz? Tratei o problema com extrema atenção, um pouco por culpa, um pouco por pena do seu marido e outro pouco porque te achei bonita… Mas o importante é que, de alguma forma, cumpri com minha responsabilidade.
Segurei o choro, me levantei.
– Tem toda razão. Nem deveria ter te procurado.
Ivan também se levantou.
– Já desistiu? Achei que estivesse aqui pra negociar!
– Vim pedir ajuda…
– Sou um homem de negócios, Andressa! Ajudo quem me ajuda! O que tem a oferecer pela resolução deste teu problema?
Balancei a cabeça horizontalmente.
– Você entrou na minha casa… sabe que não tenho nada! Não tenho dinheiro, mas posso trabalhar sem receber. Não tem o que eu não aprenda, só preciso de um tempo de adaptação.
– Andressa, Andressa…
– O que mais poderia oferecer?
– Gostaria que você me dissesse!
– Não sei o que dizer! – retruquei no mesmo instante.
Ivan tornou a se sentar. Virou o copo de uísque na boca, depois ficou me olhando nos olhos por alguns segundos. Parecia querer extrair algo de dentro de mim, parecia querer entender o que eu estava pensando naquele exato momento.
– Tiro ele da prisão amanhã mesmo.
– Como?
– Tenho um pouquinho de dinheiro, sem falar que conheço pessoas.
– Então faça isso, por favor!
– Tem certeza?
– Sim, tire ele de lá!
Ao se levantar outra vez, passou por trás de mim e deu a volta no balcão. Do lado de dentro do bar, apanhou uma taça grande e bonita e a deixou próxima à pia. Enquanto passava o dedo sobre os rótulos de algumas garrafas dispostas numa prateleira, perguntou se eu gostava de gim e sorriu quando confirmei. Misturou gelo com algumas bebidas numa coqueteleira, depois derramou tudo na taça.
– Toda mulher que conheci na vida tem laços de amizade com gim, não falha nunca, nunca mesmo. – brincou, estendendo a taça. – Gim-tônica, o clássico moderno.
Aceitei.
– Obrigada.
– Agora preciso que fique quietinha, curtindo sua bebida enquanto finjo que ouço pessoas em minha última reunião do dia. Juro que será rápida. Depois voamos pra São Paulo, ok? Amanhã pela manhã já estará de volta pra reencontrar seu marido. Voltarão pra casa e serão felizes de novo.

– Ok! – concordei.
Ele foi se sentar na mesa de reuniões do outro lado da sala. Mexeu em alguns papéis que já estavam por ali e quase não falou nada quando os três homens de terno e gravata chegaram acompanhados por Rui, que também participou do encontro.
Menos de trinta minutos depois, já deixávamos o local em direção ao aeroclube.
– O Rui vai com a gente. – avisou.
Rapidinho já estávamos voando. Fui levada para o mesmo hotel chique da última vez. Rui se distanciou, indo resolver alguma coisa, enquanto subíamos em direção ao restaurante da cobertura. Ivan escolheu a mesmíssima mesa, onde nos sentamos frente a frente.
– Você é linda.
– Obrigada. Você também é… – sussurrei.
– Alguém deveria ter proibido que se casasse tão jovem.
– Você não é casado?
Ele fez um “não” afobado com a cabeça.
– Tô pensando em me casar com você, mas só nos dias em que tiver que visitar Itapevi, nos outros te deixo casada com o Luís. Como podemos fazer isso, tem alguma ideia?
– Não…
O garçom veio trazer a comida, o que não o impediu de prosseguir, como se ainda estivéssemos a sós:
– Já traiu seu marido, Andressa?
Consegue imaginar a cena? Ivan: enfiando o olhar no fundo da minha alma. O garçom: fazendo cara de sonso enquanto montava nossos pratos. Eu: mais vermelha que um pimentão, tremendo de vergonha e respirando com dificuldade.
– Nunca.
– Ainda nem defini minha programação, mas acho que estarei em sua cidade ao menos duas vezes no mês. Vou mandar prender seu marido nesses dias, assim você me procura pra pedir ajuda. – brincou (eu acho…), sorrindo diabolicamente.
Jantamos e continuamos a falar sobre tudo.
Num dado momento, se levantou e ajudou com que me levantasse. Depois passamos a caminhar de mãos dadas, como namorados, a caminho do elevador. Descemos um andar apenas, com o corredor terminando justamente diante da porta da suíte. Entramos no quarto. Ele deixou o corpo cair num divã luxuoso, colocando ambas as pernas sobre o móvel, sem deixar de me encarar.
Jamais senti tanta insegurança.
– Tire meus sapatos e minhas meias. – pediu… pediu não: ordenou.
Inclinei o corpo para obedecer, no entanto, com uma nova ordem, fez com que eu me ajoelhasse. Obedeci novamente. Tirei seus sapatos e suas meias. Fiquei parada esperando que dissesse mais alguma coisa, mas ele só me observava, munido daquele característico sorrisinho malicioso.
– O que eu faço? – perguntei.
– Tire a roupa e vá pra banheira.
Bastou que eu ameaçasse o primeiro passo, para exigir que me despisse ali e só então me afastasse.
Morrendo de vergonha, tirei lentamente minha blusa, depois (mais lentamente ainda) o cropped que usava por baixo. Tanto quanto o resto do meu corpo, os bicos dos meus seios, muito arrepiados, pareciam pedir para que minhas mãos os protegessem.
Retirei os tênis e as meias, depois me concentrei na calça. Libertei o botão com meus dedos hesitantes e fui descendo o zíper como se estivesse rasgando minha própria pele. A calça era justa, tentou se agarrar em minha calcinha, mas não permiti. Tirei uma, depois a outra, peça por peça…

– De costas! – impôs.
Apesar da circunstância e da tensão entranhada em cada parte do meu corpo, estava excitava como nunca imaginei que ficaria, como jamais imaginei que alguém me pudesse deixar.
– Posso ir?
– Pode… vai lá. Pedi que deixassem a banheira pronta. Entre e me espere, só vou responder algumas mensagens. – murmurou, depois tornou o rosto mais afável para elogiar. – Você é uma delicinha! Sua bunda é muito gostosa!
Entrei na banheira e aguardei. Passavam mil e uma coisas na minha cabeça. Por um lado, me culpava por estar fazendo aquilo com Luís; por outro, tentava me convencer de que tudo era por ele.
Ivan demorou vários minutos. Quando chegou, colocou seu copo de uísque na borda da banheira e me entregou outro. Arrancou o roupão e ficou nu, se enfiando na água vagarosamente, por trás de mim, puxando meu corpo até encaixá-lo entre suas pernas, com minhas costas apoiadas em seu peito, quase sentada em seu colo. Beijou meu pescoço, virando meu rosto para enfiar a língua entre meus lábios.
Apanhou o copo, encheu a boca de uísque e depois veio me beijar novamente, cuspindo tudo na minha boca. Desceu a mão pelo meu peito, ultrapassou o umbigo e apertou minha buceta. Deu tapinhas, sorrindo maldosamente, depois socou dois dedos, em movimentos circulares, me causando contorções e pequenos gemidos.
De repente, recuou o braço e, dentre todos os recipientes que haviam dentro de um pequeno estojo plástico, apanhou um bem pequeno, arredondado, cheio de minúsculas bolinhas roxas e, sem romper seu lacre, o arremessou sobre meu ombro, jogando-o na água, no lado oposto ao que estávamos.
– Sou muito desastrado… Pode pegar pra mim?
– Claro!
Quando fui me mover, pensando em me esticar toda para alcançar o objeto, Ivan me agarrou e corrigiu a forma com que queria me ver fazer aquilo:
– Quero que se incline, apoiando os joelhos na banheira…
No segundo seguinte estava praticamente de quatro, com mais vergonha ainda, pois minha bunda estava toda ali, indefesa e completamente vulnerável, praticamente na cara dele.

Logo depois disso ele se levantou. Seu pau, bem duro, roubou minha atenção… De repente, fui subindo um pouco mais o olhar e lá estavam aqueles olhos orgulhosos, adorando me ver hipnotizada por aquele pinto. Fez questão de me tratar com tanto cuidado e carinho que, inocentemente, mais de uma vez, cheguei a cogitar de que estivesse apaixonado por mim. Enxugou meu corpo como um pai faz com uma filha pequena.
De volta ao quarto, se sentou na beirada da cama, fazendo com que me deitasse de bruços sobre suas pernas, igual uma garota levada, prestes a tomar palmadas por ter feito algo errado. Minhas costas nuas se arrepiaram apenas com o deslizar daqueles dedos grandes… O arrepio, sem querer, me empinou toda, como um gato acariciado. Talvez por isso tenha levado o primeiro tapa na bunda, depois outro. Era uma dorzinha gostosa, que me excitava cada vez mais. A única coisa que pedi, naquele primeiro momento, foi para que não me deixasse marcas, pois Luís certamente perceberia.
– Fiz acordo com você, não com ele! – respondeu, maltratando minha bunda mais e mais.
Minha pele é clara, então as marcas tornaram-se inevitáveis. A cada tapa, conforme minha bunda latejava, aquela dor prazerosa fazia minha buceta pulsar junto, por isso eu gemia e suspirava.

Fui jogada na cama, ainda de bruços. Senti sua língua percorrer meu calcanhar e minha panturrilha, depois a parte de trás da minha coxa. Beijou, lambeu, mordeu minha bunda e enfiou a língua no meu cuzinho. Agarrei o lençol com as duas mãos, quase rasgando o tecido.
Virou meu corpo, colou minhas costas no colchão, suspendeu minhas pernas, arreganhando-as, somente para enfiar a língua mais fundo na minha bucetinha. Ora mordia suavemente meu clitóris, ora mordia suavemente o interior das minhas coxas.
Quando parou, escalou meu corpo e ficou acocorado sobre o meu peito. Encaixou seu saco na minha boca e repousou o pinto sobre meu rosto… E era um pau que ocupava minha cara toda, sendo que o safado era conhecedor da arma que tinha, tanto que provocou, enquanto esfregava suas bolas no meu queixo e nos meus lábios:
– Duvido que a rola do seu marido seja assim…
E claro que não era, definitivamente não. Ivan era um homem alto, com um biotipo diferente e características que não lembravam em nada a estrutura física do Luís. Mesmo assim, me mantive em silêncio, só para não lhe dar o prazer da resposta.
Depois de esfregar o pinto na minha cara, enfiou na minha boca, primeiro devagarinho, depois violentamente, ao passo que me via respirar pelo nariz e arregalar os olhos. Pediu que mordesse, que beijasse, que lambesse aquela rola dura. Eu de repente me vi mais putinha que minha irmã, obedecendo a tudo, com aquele pinto quase na minha garganta, enquanto Ivan tapava meu nariz, apenas para sorrir com meus engasgos.
Colocou o preservativo e me botou de quatro na beirada da cama, ficando em pé ao lado dela. Aí, enquanto me fodia com força, dava mais tapas na minha bunda, me mandando rebolar a todo momento. Devo ter parecido uma desengonçada, pois nem meu marido me pedia aquilo. Inexplicavelmente, gemi e gozei como nunca havia gozado antes, já nas primeiras estocadas.
Como um brinquedinho nas mãos dele, fui posta de lado, com as pernas juntas. Ajoelhado na cama, com o pau enterrado na minha buceta, Ivan parecia um animal, um animal que precisava me devorar para continuar existindo ou apenas para satisfazer seu ego.
De frente, num “frango assado” em que arreganhou minhas pernas com truculência, enquanto judiava mais da minha xaninha, me dava pequenos tapas no rosto, esganava meu pescoço com sua mão grande ou enfiava dedos na minha boca. Parecia tão alucinado, enlouquecido com tudo, que imaginei que gozaria a qualquer momento… Mas, mais uma vez estava enganada, pois ele só estava começando. Deitou-se na cama e me fez cavalgar sobre ele, primeiro de frente, depois de costas.

De repente, Ivan agarrou minha cintura, derrubando-me no colchão. Afastando-se um pouco, ficou examinando alguns frascos sobre o tampo de um móvel de madeira, chumbado num canto do quarto. Retornou rapidamente, retirando com a boca o lacre de um frasco cilíndrico… Ao entender o que estava acontecendo, senti um calafrio.
– Não me machuca, por favor… – pedi com a voz melosa.
Ele veio me beijar a boca, depois perdeu mais alguns segundos lubrificando o preservativo que recobria aquele pau inchado e duro, tal qual um serviçal preparando a ferramenta que estava prestes a utilizar.
No segundo seguinte, me colocou de ladinho, deitando-se atrás de mim. Esfregou o pau na minha bunda, até ir conseguindo me penetrar. Não posso dizer que ele não tenha agido com cuidado ou que não tenha sido carinhoso, principalmente enquanto ia empurrando devagar, me fazendo gemer de prazer ao ser, pouco a pouco, preenchida por aquela rola grossa, que avançava espalhando lubrificante quase nas minhas entranhas.
Depois a coisa mudou um pouco. Ivan se ajoelhou na cama e me botou de quatro. Foi nesse momento que eu tive certeza de que nunca mais seria a mesma, de que nunca mais poderia dizer ao meu marido que era apenas dele e só pensava nele, pois nada nessa vida me faria esquecer do dia em que um homem charmoso e safado escolheu minha bunda, dentre todas as bundas de moças que certamente aceitariam estar em meu lugar, para foder com força numa das camas macias do hotel mais caro e bonito de São Paulo.

Nunca cheguei a ser a maior fã de sexo anal; mas passei a encarar de outra forma depois de cair nas garras daquele cara, que era vivido, que já devia ter comido muito cu nessas andanças por aí… Com meu esposo, em todas as nossas tentativas, só devo ter ficado com a parte da dor, pois o prazer, decerto, ficou todo para ele.
Quando gozou, apertou minhas duas nádegas com bastante força e soltou um grunhido, depois deixou o peso do corpo ir caindo sobre minhas costas, fazendo com que me deitasse com ele por cima de mim. Ficou ali em silêncio por mais de dez minutos. Quando decidiu dizer alguma coisa, acho que me pediu desculpas primeiro, depois agradeceu, sussurrando algo também sobre os tapas que me deu; não entendi direito, pois estava tão extenuada, que peguei no sono e despertei com a voz ao meu ouvido.
Com lentidão, se levantou e pegou seu telefone celular, depois foi ao banheiro. Saiu rapidamente, vestiu o roupão, apanhou as roupas que havia deixado sobre o divã, os sapatos no chão e exclamou, antes de me beijar na boca pela última vez:
– Boa sorte em tudo, Andressa!
Imersa naquela minha espécie de “Síndrome de Estocolmo”, também agradeci:
– Obrigado, Ivan!
– O Rui cuidará das coisas. – garantiu.
Imaginei que “o Rui cuidará das coisas” fizesse referência ao meu retorno pela manhã e à soltura do meu marido… mas não, não era só isso.
Quando Ivan abriu a porta do quarto para sair, Rui o cumprimentou e aproveitou para entrar. Puxei o lençol e cobri meu corpo.
– Calma, Andressa, calma… – murmurou, já desatando o laço do roupão.
– Ah, Rui… Você não vai fazer isso comigo.
– Vou, mas não tem que se preocupar. Não tenho a juventude do Ivan. Vou te tratar com todo carinho do mundo, prometo.
Foi puxando o lençol, acariciando meus pés e minhas pernas.
– Não me machuque.
– Não vou te machucar, pode ficar tranquila. – prometeu.
Circundou a cama e veio colocar o pau dentro da minha boca.
– Coloque o preservativo, por favor.
– Não vou conseguir colocar enquanto não ficar duro…
O que eu poderia fazer? Chupei até endurecer. Depois ele me comeu sem dar os tapas que Ivan me deu, sem a safadeza nas palavras e nem os puxões de cabelo. Começou de conchinha, mas só conseguiu chegar perto de gozar quando me colocou com as costas no colchão e ergueu uma de minhas pernas…

Retirou então o preservativo e se masturbou, sujando minhas coxas e parte da minha barriga com seu sêmen. Vestiu o roupão e saiu.
Pela manhã, enquanto Ivan viajava para os Estados Unidos, Rui e eu retornamos a Itapevi. Do aeroclube, partimos direto para a penitenciária, onde ainda tivemos que aguardar horas até finalizarem os trâmites da libertação. Só eu sei a alegria que senti ao ver meu marido solto novamente. Um táxi nos levou para casa.
Luís estava morto de saudade de tudo: das plantas, da nossa cachorrinha e principalmente de mim. Mal chegamos e, assim que trancou a porta, passou o braço sobre um móvel e derrubou todos os troféus que ganhou na época em que jogava tênis de mesa, me agarrou pela cintura e me colocou sentada em cima, como se fosse seu troféu predileto. Ficou em pé, entre as minhas pernas, me abraçando e beijando minha boca, como que assumindo o medo de que nos afastássemos novamente. Só me tirou dali de cima para me deitar no sofá, depois começou a tirar minha roupa enquanto continuava me beijando.
Meu coração disparou, quase explodiu. Estava toda marcada, cheia de arranhões e hematomas… nos peitos, na barriga e nas costas, sem mencionar os vergões que tinha em quase toda a bunda e na parte interna das coxas.
Tentei agarrar as mãos dele.
– Vamos ter todo o tempo do mundo… – murmurei.
Luís ficou sério.
– Preciso te comer agora!
Ao arrancar minha blusa e o cropped, pude perceber suas expressões se transformarem pouco a pouco. A testa pregueada de rugas, as sobrancelhas encolhidas, a boca trêmula.
– Ele te levou pra São Paulo, né? – perguntou com um sussurro.
Respirei fundo antes de responder:
– Levou sim. Vamos conversar?
– Esquece isso, te amo e sei que fez por mim.
E depois da declaração de amor, terminou de me despir e fez questão de beijar cada uma daquelas marcas, como se quisesse curar e purificar, até ver minha bunda e não conseguir se conter:

– Ele te bateu?
– Sim, mas não da forma que tá imaginando.
– Você gostou?
Virei-me para encará-lo:
– Não vou responder essa pergunta.
Luís apenas me beijou, massageou minha pele, depois passou, com todo cuidado do mundo, a língua na minha xaninha e no meu cuzinho maltratado. Quando tentou me penetrar, fiz o que pude para suportar a dor, mas não fui capaz.
– Hoje não vai dar, desculpa…
Ele entendeu. Se deitou ao meu lado e ficou se masturbando e acariciando minha cabeça, até que peguei no sono.
Hoje em dia ainda estamos juntos e felizes, passando por uma fase, inclusive financeira, bem melhor do que naquela época. Acho que só conseguimos seguir em frente, porque o Luís não ficou remoendo os fatos, tampouco perdendo tempo em jogar aquilo tudo na minha cara durante ou após alguma briga. De alguma forma, parece ter conseguido esquecer e superar, sem nem mesmo querer saber os detalhes que vivi naquela madrugada no hotel chique da capital.
Nunca mais vi o Ivan, ainda que às vezes ele insista em aparecer em algum sonho meu ou volte a fazer as mesmas coisas que fez comigo… em algum pensamento que ainda não consegui exorcizar.
Já quanto ao Rui: encontramos certa vez em um supermercado da cidade. Como se nada tivesse acontecido, cumprimentou o Luís e depois me cumprimentou. Coitado do meu marido; pois, por não saber que o safado também tinha me comido, ainda o agradeceu por ter ajudado a libertá-lo da prisão.”
N.R.V. – Itapevi/SP
Observação: todos os nomes expostos no conto são fictícios, assim como certos detalhes que eventualmente possam causar constrangimentos aos envolvidos.
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